Grécia: tempos concentrados, tempos de mudança

por Thiago Aguiar

Num artigo curto mas muito denso, que pela agudez há muito tempo utilizamos e repisamos em discussões sobre o caráter do partido e da política em Lênin, Daniel Bensaïd utilizava uma poderosa metáfora para mostrar os diferentes tempos da política. Numa temporada anterior na Grécia, já havia utilizado esta referência pela escolha do dirigente revolucionário francês de dois deuses gregos: Chronos e Kairós. Se antes a ilustração era útil mais pela menção à mitologia, agora retomá-los e invocá-los pode ajudar a iluminar as questões abertas na véspera da eleição grega.

Um dia antes de se proclamarem os resultados que podem levar Syriza ao governo, a impressão que se tem é de um tempo concentrado. Os minutos e as horas valem por dias. O domingo vale pelos últimos cinco anos de austeridade e pelo próximo período de definições profundas. Isto quer dizer que é muito reduzido o espaço para a acumulação linear, para os ajustes ao longo do tempo e para as idas e vindas das negociações nos salões do poder. O tempo cronológico abre espaço para as tormentas, os giros rápidos e os enfrentamentos. Os trovões das ruas já começam a antever-se e basta passar os olhos pelas páginas dos jornais ou caminhar pelas ruas para ouvi-los. Não por acaso, na Grécia do presente, kairós é a palavra utilizada para descrever o clima, e aparece quase como um alegre acaso na previsão do tempo em meio à cobertura política televisiva.

Prever os resultados de amanhã só é fácil na aparência, já que tudo leva a crer que Syriza chegará em primeiro na votação de amanhã. Por outro lado, o caráter do governo e das pressões que surgirão, estando condicionado por vários aspectos, passa certamente pela definição da maioria absoluta, sobre a qual já se falou nesta jornada. Alexis Tsipras e o Syriza enfrentarão nos dias seguintes às urnas e nas primeiras semanas do novo governo uma série de contradições sobre as quais não apenas os círculos da esquerda, como a própria imprensa burguesa, discutem abertamente nestes dias. A principal reportagem de Financial Times neste fim de semana traz um pefil de Tsipras para fazer a seguinte pergunta: realista ou radical?

As pressões para que o medo vença a eleição e derrote Syriza já parecem menores frente à disposição da Troika e da classe dominante europeia, dada a quase certa vitória, de adotar outra tática e forçar a esquerda radical grega a assumir um caminho de negociações, concessões e conciliação. O novo plano de compra de títulos promovido pelo Banco Central Europeu pode ser uma das peças deste tabuleiro, permitindo aos dirigentes europeus realizarem o velho jogo da cenoura e do garrote com o governo helênico. A dura resistência da Alemanha às medidas de Draghi no comando do BCE, no entanto, torna o cenário a respeito ainda turvo.

O discurso de Tsipras durante a campanha e em Omonia na última quinta-feira toca e sensibiliza aspectos patrióticos, do orgulho de um povo que resistiu ao nazismo e que nos últimos anos praticamente viu-se governado de Berlim e Bruxelas. Syriza assumiu nesta campanha o discurso da responsabilidade de um governo que precisa dar fim à crise humanitária, alimentar, garantir calefação e serviços básicos a um povo que assistiu à renda nacional cair 25% em cinco anos. Trata-se de um desafio imenso e enfrentá-lo é decisivo para quem se propõe a governar o país.

Restam muitas questões abertas, no entanto, sobre aspectos centrais: o que significam os apelos pela “negociação” da dívida, para além da reivindicação de que seja cortada e rediscutida? Até onde poderá ir a elasticidade numa discussão em que o lado contrário parece inflexível? Como, por outro lado, cumprir a disposição explícita de terminar com a austeridade com tal pano de fundo? Os desafios são complexos e por isto os próximos dias valem por anos.

A própria composição do governo em aliança, até agora descartada, pode voltar à cena se não se alcança a maioria. Quem comporá a composição e quais os efeitos dela para a política do futuro governo? Questões ainda em aberto.

Antonis Ntavanellos, dirigente de DEA, corrente da Plataforma de Esquerda do Syriza, numa entrevista recente ao Viento Sur, apontou elementos fundamentais para a discussão. A pressão do capital financeiro e da Troika precisa ser respondida com mobilização do povo e dos trabalhadores gregos e solidariedade internacional, especialmente europeia, visto que a Grécia sozinha não pode derrotar os planos de ajuste. Por isso, veio em boa hora o grito da multidão reunida em Omonia de “Venceremos, Syriza e Podemos!” quando Iglesias subiu ao palco.

O apoio mútuo entre os partidos tem potencial para ampliar as condições de enfrentamento ao capital financeiro em toda a Europa. Mas mesmo estas declarações não são a garantia da vitória. A direção do Syriza não pode hesitar e o caminho da “salvação da pátria” não pode significar o abandono das posições que justamente levaram a esquerda radical a chegar onde está. É preciso enfrentar os planos de ajuste e a política da dívida da Europa que sequestra o Estado e submete os trabalhadores à pilhagem financeira de um capitalismo em crise.

Nós, que ao longo dos últimos anos não vacilamos em nosso apoio ao Syriza, não estamos com a esquerda radical grega pela importância da ocasião. Acompanharemos este processo com interesse e solidariedade, para também com ele aprender. Nosso entusiasmo é enorme e proporcional às questões que estes dias de tempos concentrados nos abrem.

Não por acaso – presença de Kairós – os últimos dias têm sido de sol e lindo céu aberto seguidos por repentinas nuvens pesadas, frio e chuvas. Aguardamos com ansiedade o dia de amanhã, com a certeza de que a esperança está chegando. A vitória de Syriza é a derrota da Troika. A vitória de Tsipras fortalece Podemos e os povos da Europa. A vitória dos gregos abre um outro período neste continente que se reflete no mundo. É nossa vitória.

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